Sem redes e cumbucas passamos nosso segundo dia no barco em algum lugar entre o amazonas e o pará. A janta era o mesmo que o almoço, o almoço era a janta do dia anterior, e de café pão e cuscuz pra inchar a barriga. Nunca vimos o cozinheiro só seus gritos vindos das profundezas da cozinha: "passa essa porra direito seu filho da puta!" ou "vai logo com os pratos caralho!" a água barrenta e calma, onde corriam troncos, plantas, chinelos e garrafas plásticas jogadas pelas crianças, foi a paisagem que nos acompanhou durante toda a viajem, exeto as rápidas paradas em parintins e óbidos para carga e descarga. Os livros que carregamos de paulo freire nem foram abertos, todo o tempo estavamos como que ipnotizados pela beleza imutável do caminho. Na primeira noite durmimos no chão do barco com um rio de redes acima de nossas cabeças, que pouco nos protegiam do vento e do frio, depois do almoço ainda com sono dormimos na proa do barco com o calor do sol. Música brega sem parar até as duas da manhã e crianças brincando soltas por todos os lados. A pequena Raissa de olhos grandes e curiosidade maior, perguntou para a avó onde estava o bicho barbudo que ela tinha visto... Despois de um dia nublado e chuvoso o céu se abriu revelando o por do sol. De noite no teto do barco observávamos a lua e as estrelas encolhidos nos protejendo do vento congelante até dormir.
De madrugada o barco chega em santarem e ficamos dormindo até o amanhecer nele. De manhã nos despedimos de uma turma de geógrafos de SP que nos deram uma força na viajem. Não conseguindo entrar em contato com o Gama fomos andando até o centro da cidade e cansados paramos em uma praça em frente a uma igrejinha rosa e ligamos para Gama, que nos recomendou pegar moto-taxi, voltando praticamento todo o caminho que tinhamos andado chegamos ao projeto puraqué de inclusão digital que funciona em lojas cedidas por um hotel quase abandonado. Trocamos idéias sobre o lugar a militancia e nossas propostas de atuação. Um após o outro Gama nos levou para sua casa de moto para almoçarmos em sua casa feita de madeira, e a sombra de árvores em meio a crianças, pássaros, iguanas e amigos comemos apos uma oração e bebemos todo o suco de carambola da árvore em cima de nós. Pegamos uma carona de volta com Tarcísio para puraqué e depois fomos levados para a casa da presidente da Asssociação das mulheres trabalhados dos remanescentes de quilombos de Oriximiná que nos deu a chave de nossa habitação: a casa das mulheres. Limpinhos e mais descansados tentamos voltar ao puraqué nos perdendo pela primeira vez. E enquanto esperávamos a bateria do laptop terminar começamos a fezer este diário de bordo. Na volta do puraqué, após nos perdermos de novos, voltamos para casa e estendemos as redes que nos foram cedidas.
O alarme nos acorda as 6:40h e nos levantamos pra tomar café prestes a começar as nossas oficinas as 8h, estranhamos a cidade pois não havia ninguém na rua, encontramos uma padoca com as chapas ainda desligadas e o bufe sendo preparado, procuramos outra padaria mais as poucas pessoas que encontrávamos não sabiam nos informar, assim fomos ao puraqué sem tomar café e quando chagamos demos conta que na verdade acordamos no horário de Brasília e eram na verdade 6h da manhã e que tinhamos acordado na real as 4:40h. Sentados da parada de onibus esperamos a padaria abrir e fomos começar nossas oficinas. Começamos conhecendo uns 15 jovens que fariam nossas oficinas, a turma foi separada, parte da galera fez oficina de eletrônica com sucata. Para començar a construir o novo patrimonio de peças eletronicas començamos desoldando vários monitores que estavam no estoque, e a outra parte ficou no laboratório experimentando os primeiros processos no trabalho com imagens, fotografia, tratamento e vetorização, além de troca de idéias sobre os primeiros processos de produção gráfica, a origens dos programas de editoração e o uso da midia como meio de expressão comunitária com identidade. A tarde a oficina de html levou a garotada trabalhar pra valer descobrindo códigos com a meta de fazer o novo site do puraqué, na oficina também foi definido a árvore do site e apresentados conceitos básicos de teoria de cores, formatos gráficos e diagramação. A noite compramos nosso jantar e café da manhã do único supermercado aberto que era puta caro e fizemos nosso banquete de pão e abacaxi sentados no nossa oca.
Acordamos com mais picadas que na noite anterior já nos acostumando as redes e a chuva lá fora sem parar, quando a chuva estiou rumamos paa o puraqué, por conta da chuva poucas pessoas foram, e trabalhamos fazendo o jornal e continuando com os programas de gráficos. Despois do almoço lavamos nossas roupas até a água acabar e voltamos ao puraqué para nossa segunda oficina de web, onde fizemos como criar links, inserir imagens e trabalhar com camadas, tudo em html, muitas sementes de sites foram germinadas. Depois fomos encontrar Gama para pedir nossa mesada diária onde connhecemos o projeto saúde e alegria que tem sede quase em frente ao puraqué e trabalha com saúde, prevenção, e desenvolvimento social; lá eles estavam gravando o audio da propaganda que vai correr a cidade em uma bicicleta de som anunciando as novas vagas das oficinas, lá conhecemos um mano da frente proteção do amazonas e combinamos ir com ele amanhã para uma reunião semanal, enquanto a chuva molhava nossas roupas no varal.
A chuva nos segurou em casa até a hora do almoço quando nossas barigas roncaram e fomos ao restaurande "Peixaria do Kim" que fica ao lado da casa, voltamos e quando decidimos quebrar o pino do fio terra do conector do notebook para podermos trabalhar em casa mesmo a chuva parou e fomos mais uma vez para a oficina, nela introduzimos css e alguns conceitos de construção de sites. Com o fim da oficina fomos para o projeto saúde e alegria para encontar o tinho, toni, tonico, tinoco, até hoje não lembramos seu nome ,não o encontrando nem no projeto nem na reunião da frente de defesa da amazonia. Com vontade de ficar fora de 4 paredes resolvemos dar uma volta pela orla da cidade onde encontramos, pescadores e estivadores indo dormir nos barcos, um pequeno bloco de carnaval seguindo uma pampa, pessoas fazendo exercício e jovens namorando nas praças, em uma das praças uma festa anunciava o início do carnaval e uma escadaria nos levou ao mirante da cidade, na volta cansados esticamos nossos pés no ponto de onibus e seguimos até a casa achando que já era muito tarde mas nem tinha dado 10h.
De manhã fomos com Gama e seu irmão na feira da cidade, muitas frutas, temperos e muita mas muita farinha. Em uma rápida volta compramos frutas e comemos tapioca. Continuamos as oficinas com css e diagramação. A noite participamos da colação de grau de 150 alunos do telecentro da escola Maria Amália com direito a foto com a prefeita e aplauso sem esqueçer do bolo e dos salgadinhos! Este telecentro é apoiado pelo projeto puraqué e a prefeitura de santarem. O objetivo é de estabeleçer 14 novos telecentros nas escolas municipais, que gostaríamos muito de porder participar neste processo. A escola tem uma história de violência que mudou com a aproximação da comunidade. Acabado a colação fomos a casa da mãe de Tarcísio, um militante do projeto puraqué, que nos preparou um gargarejo com sementes da região.
Enquanto tomávamos café a turma do puraqué nos fez uma visita para trazer Vince e Monique que tinham acabado de chegar de Oriximiná para passar o carnaval em Alter do Chão. A turma desceu para fazer a "muvuca" entregando os panfletos dos cursos e oficinas que vão começar dia 11. Terminado o café descemos para a feira, onde pegamos uma garrafada para dor de garganta com um mestre curandeiro na feira, e ajudamos na muvuca entregando panfletos e dirigindo a bicicleta de som pelo caminho de volta. Almoçamos com Vince e Monique antes sua partida. Voltamos ao puraqué e trocamos idéias sobre a rediagramação do jornal puraqué, um impresso produzido por eles em comunhão. Os alunos ja estão a construir pequenos sites se preparando para fazer o site do puraqué. Chegando em casa conhecemos dois novos companheiros trabalhadores rurais da BR 163 que vão passar um tempo por aqui. Deitamos na rede e terminamos de fazer três dias de atrazo do diário...
Passamos o dia dando oficina de html, css e javascript, pela manhã e tarde as moças que trabalham no puraqué e não puderam fazer as oficinas nos dias de semana se juntaram a nós para aprenderem, ao mesmo tempo começamos a fazer um tutorial de web design, html e css básico para ajudar a garotada e os insentivarem a fazer seus propios tutoriais. Ao chegar em casa encontramos mais trêz companheiras vindas das aldeias dos garimpos, tanto elas quanto os companheiros da BR 163 estão aqui na espera de tratamento médico e pernoitando conosco na casa das mulheres. A noite depois de botar as pernas pro ar em nossas redes Gama nos visitou para receber uma introdução de javascript e uma boa troca de idéias ao som dos grilos! Na despedida ele começou nossa oficina de motocicleta que começou com tentativas frustadas da Nara de sair do lugar e o Farid trocando o freio pelo acelerador enquanto caia no chão.
Mais um dia de oficinas. Fomos convidados para almoçar na casa da France. No caminho nos perdemos e tivemos que voltar no Puraqué onde Gama nos levou, com um prazer inexplicavel ate a casa dela. De noite saimos para comer um peixe assado com Vince e Gama.
Ultimo dia de oficinas! A galera empolgada com html, css, gimp e inkscape fazendo seus próprios sites. Almoçamos novamente na casa da France. Tocamos pandeiro e asistimos um filme com vince em nossas redes no laptop.
Nosso ultimo dia em Santarem. Nara acordou vomitando, sofrendo de uma grande intoxicação. Farid ainda com garganta inflamada. Estamos um pouco desgastados. mas pelo menos hoje é dia do churrasco de nossa despedida. A galera do Puraqué se juntou pra um churrasco comunitario na casa de Evalter. Foi sem duvida uma turma especial onde conseguimos deixar uma pequena semente. Também nos despedimos de Vince que estava de saída para Belém continuando o trabalho dele. Voltamos para a casa das mulheres e nos despedimos dos companheiros residentes da casa das mulhesres e Gama nos levou um após o outro na moto até o barco. Embarcamos para Oriximá em uma viajem de 12 horas, mas desta vez com redes.
Chegamos em Oriximiná por volta das 7 da manhã após uma viajem tranquila (sem brega no barco) e com um sono bem merecido. desembarcamos e ficamos nas arquibancadas do carnaval da noite anterior tomando café da manhã e esperando Irene vir nos encontrar. Ela nos levou para conhecer as duas escolas estaduais, Nicolino e Almir Gabriel, para organizar nossas oficinas. Almoçamos com ela e voltamos pra escola Almir Gabriel para instalar Linux nos computadores do laboratorio de informatica que tinha sido removido por alunos da UFPA dando oficinas de férias (sacanagem!). As duas iniciamos as oficinas para um grupo bem heterogenio variando entre pessoas que nunca tinham usado o computador e pessoas que tinham ja asistido oficinas do projeto puraqué e da rede mocambos. Acabamos achando nossa estadia em um alojamento para alunos da UFF. De noite visitamos a praça do centenario onde crianças jogavam bola e a rapazeada sentava pra jogar baralho e trocar ideia. De novo não achamos nenhum lugar que vende suco ao não ser de laranja. cade as frutas do Para??????????????????????????? Vemos que temos muitos desafios aqui. entre eles manter as salas dos computadores nas duas escolas sempre abertos para os alunos. Hoje foi esclarecida mais ainda importancia de administrar não só oficinas para a desmistificação do computador e a troca de conhecimento, mas tambem para gerar renda. É de importancia maxima desenvolver esta autonomia.
Ja tendo nos acostumado as redes nosso alojamento aqui é de cama. descobrimos que estamos ficando no alojamento da FAB. Tomamos café com os estudantes e nos dirigimos para a escola nicolino para começar nossas oficinas. Novas pessoas apareceram por causa da divulgação. Durante o dia demos as oficinas de HTML, mas desta vez focando mais na geração de renda fazendo sites. pelo fim do dia a galera fez sites de muitos temas variados. Pessoas das comunidades quilombolas apareceram, e o pessoal do sindicato do trabalhadores rurais também. Na saida da escola, cansados do dia de oficina, nos encontramos com um bebado falando de ET's e a conspiração de avioes americanos que parecem nuvens. Foi dificil nos livrar dele. De noite nada pra fazer além do que assistir as lagartixas na parede brigando entre si, resolvemos fazer alongamento na quadra de esportes e tentar pular para alcançar o aro da tabela de basquete. Nos encontramos com uma aluna de enfermagen de origem boliviana e trocamos idea até bater o sono.
Nao tendo oficina pela manha cruzamos a cidade em direção a praia, em mais ou menos 45 minutos. Chegamos em uma parte da orla onde havia uma praça, kiosques e jardims. mas em pleno sabado tudo abandonado, nao tinha ninguem. nadamos com os peixinhos e os carangejos vendo os barcos passarem. As 10 e pouco voltamos pelas ruas da cidade com sol fritando nossas cabeças e as crianças indiferentes soltando pipas descalças no asfalto quente. Almoçamos na UFF e nos preparamos pra dar as oficinas, hoje na escola Almir Gabriel. Jantamos e fizemos o classico programa de cidade pequena: tomar sorvete na praça.
Logo de manhã procuramos locadoras de motos para alugar uma, acabamos alocando uma honda biz por 24h, perguntamos como se usava a moto e saimos prometendo que não iríamos cair dela, e que eramos acostumados a andar de moto, pedimos as cordenadas de uma praia que nos indicaram e pegamos a estrada, no início era um asfalto novinho depois ao entramos em um ramal de areia fofa e poças dágua, com muito esforço chegamo sna prainha, um lugar com alguns bares, campinho de futebol e grandes árvores fazendo sombra na beira da água, ficamos na água até ficarmos com as mão e os pés emrrugados, tanto que perdemos o almoços de lá e voltamos, também com muito suor e algumas quedas da motocicleta, para poder almoçar e dar nosso ultimo dia deoficina. Na oficina soltamos a galera para poderem desenvolver seus próprios sites e trocamos idéias sobre a importância da continuidade do aprendizado. Fomos tomar sorvete e dar oficinas de como andar de moto com as meninas da enfermagem em uma pracinha próxima, em uma das voltas a moto levou um tombo na ladeira soltando seu retrovisor, tirando alguns arranhões estavamos inteiros .No fim doa dia voltamos motorizados a prainha no final da cidade para observar as estrelas na esperança de identificarmos as constelações e encontramos estrelas cadentes.
Acordamos bem cedo para nos despedir do rio dando um ultimo mergulho sem medo de peito aberto, na volta paramos para comprar comida para a viajem e avistamos o barco que íamos voltar já cheio de gente e redes, paramos para nos informar em uma banca que fica na beira da calçada, o vendedor nos disse que as passagens para MAnaus já tinham acabado e que deviamos procurar saber se ainda podiamos viajar com a Cristiane dentro do barco, chegando lá um outro vendedor nos disse que realmente estava lotadoi e que por causa da fiscalização não poderia viajar mais niguém, fomos atraz de Cristiane e lhe imploramos para que fossemos, ela se comoveu com nossas lágrimas e nos deixou embarcar, voltamos tranquilizados para a UFF arrumamos nossas malas e fomos devolver a moto com o retrovisor solto, o filha do dono da locadora que também era filha do dono da sinuca e da loja e eletrodomésticos, não gostou nada da história di retrovisor e falou qe teriamos de comprar outro mas no final passamos em uma oficina e recolocaram o retrovisor sem muito trabalho. Catamos nossas malas e fomos para o barco onde conseguimos pegar lugares bem ruins no setor de carga de descarga do barco. Ao sair o barco estava abarrotado de gente, nos apertamos em nossas redes e seguimos viajem.
Nessa volta pegamos um navio de ferro onde a comida era bem melhor e não tinha brega tocando o dia inteiro porque agora tinha antena parabólica e galera fica vendo TV mesmo. Ficamos esperando o tempo passar, as vezes vendo o rio passar e crianças sairem de barco para pegar biscoitos que as pessoas do barco jogavam.
Esperamos a hora do voo de volta dando umas voltas em Manaus, até pegarmos nosso voo e fazermos uma pequena grande escala em São Paulo, para dia 14 chegarmos em Brasília.
Na caminhada percebemos como nossas oficinas não podem ser meramente um compartilhamento de conhecimento para possibilitar a democratização da comunicação e a autonomia das ferramentas tecnológicas que possuímos mas também uma ferramenta para a autonomia do individuo na geração de renda com o uso de software livre. Conseguimos com a mistura de nossas oficinas de HTML/CSS e arte gráfica criarmos a possibilidade do desenvolvimento de carreiras em web-design, por exemplo. Uma falha nossa foi a falta de explicitar e enfatizar nossa ideologia, acabamos mais enfocando na técnica.
Nossas redes estão cada dia crescendo mais, mas com pouca articulação e organização entre si. É de máxima importância trabalhar em maior sintonia. O fortalecimento da galera com HTML/CSS só foi possível após o pessoal do Projeto Puraqué já ter ensinado o básico de computação, e assim estaremos e fortificando e registrando as ações feitas ali para que as próximas pessoas da rede façam parte de um processo, de um organismo comum.
Conseguimos mais ou menos fazer isso com dificuldade em Oriximiná também, ao ter dado uma continuidade das oficinas que foram feitas pela Rede Mocambos e pelo Projeto Puraqué. E sem duvida conseguimos fortalecer alguns para que quando outros chegarem eles sejam os multiplicadores. Demos nossas oficinas em duas escolas que possuiam sala com a média de 25 computadores cada que permaneciam fechadas a maior parte do tempo, oa alunos e professore queriam usar a sala mais niguém sabia como usálas sendo a sala de informática um ser estranho dentro da escola, por isso a importância do trabalho com professores, funcionários e alunos, que são responsáveis pela abertura e apropriação das ferramentas tecnológicas dentro da escola, que muitas vezes é o único lugar onde esse acesso é possível.
Mesmo com as carências da região sentimos que esses lugares são terras férteis e abertas para transformações que servem exemplo para todo o país, e que sempre seremos bem vindos!
Nossa viajem só foi possível graças a boa fé das pessoas que conheçemos, agradecidos!